terça-feira, 8 de março de 2011

Alfabetização de Alunos Surdos





 Alfabetização de Alunos Surdos

    Para o desenvolvimento do processo de alfabetização com o surdo, há também diversidade metodológica. Entre os métodos que se destacam estão: o global e o analítico-sintético.

     Método Global
    A aplicação do método global implica que o aluno apresente os seguintes requisitos:
    a)  a criança surda deve ser atendida em idade precoce, ou seja, ter atendimento educacional ou clínico , logo que seja detectada a perda auditiva; b)  logo que seja detectada a perda, haja indicação do aparelho de amplificação sonora individual adequado e, conseqüentemente, a estimulação dos resíduos auditivos; c)  a criança deverá passar por um período pré-escolar onde desenvolverá:  
    • a aquisição de linguagem em nível de recepção e emissão oral do Português e/ou da utilização da Língua Brasileira de Sinais;
    • o treinamento auditivo;
    • as funções e habilidades de coordenação viso-motora global;
    • coordenação motora fina;
    • percepção figura-fundo;
    • constância perceptual;
    • posição espacial.
    d)  a criança não deverá apresentar distúrbios perceptuais (espelhamento, problema de memória, etc.); e)  a criança deverá vir de um ambiente que lhe proporcione experiências variadas.

    Desenvolvimento do Método Global com Base Vivencial e Construtivista
    Na aplicação do método global com o surdo, o professor vai deparar com dois problemas:
a)  déficit na área da audição;
b)  déficit na área de linguagem.
    Para suprir esses déficit, o professor deve dar ênfase à pista auditiva, através de treinamento auditivo e explorar a linguagem a partir de estruturas completas.    Para a elaboração de textos com os alunos, parte-se de centros de interesse da faixa etária da criança, constituídos em unidades que formarão um todo e tendo como aspectos relevantes, a seleção do léxico e das estruturas lingüísticas, de forma simples, de acordo com o nível de linguagem dos alunos a que se destinam. Tem-se, por objetivo primordial, das condições para que os alunos adquiram o vocabulário básico da vida diária.
      Material
    O material a ser utilizado no processo de alfabetização deverá constar de:
a)  Textos produzidos pelos alunos e professores que formam um todo, subdivididos em cartelas.
b)  Cartazes que contêm os textos em letras de imprensa e ilustração feita pelos alunos;
c)  Fichas com as frases dos textos;
d)  Fichas com o vocabulário, formando um dicionário visual;
e)  Material de Análise Silábica
.  Como Explorar Cada Texto    1º passo: Exploração do real
        Levar o aluno a observar, por exemplo, vários tipos de construção de casas (sobrado, casa térrea, prédio), seus cômodos, os móveis e utensílios que fazem parte delas.
    2º passo: Dramatização da situação em classe.
    Montagem de uma casa em papelão, com todas as divisões, móveis e bonequinhos que representarão os personagens. A montagem deverá ser feita pelos alunos sob a orientação do professor. Esse material servirá para a exploração de vários textos a partir da vivência dos alunos.
    3º passo: Apresentação de cartaz com o primeiro texto, quando será feita a leitura oral pelo professor e a seguir pelos alunos.
    4º passo: Identificação da(s) frase(s) do texto.
    5º passo: Dramatização.
    Todos os textos, então, deverão ser explorados no concreto e vivênciados pelos alunos. Ex.: Dramatizar o verbo “pular”, no imperativo, mandando que cada um cumpra a ordem dada. Se o aluno não compreender, o professor deverá ser o modelo.
    Utilizar o nome de um animal (como o sapo) que possa, também, praticar a ação de “pular”.
    6º passo: Análise das fichas.
    Se , por exemplo, um aluno contar que seu amigo Paulo pula a janela de sua casa enquanto brinca, todos receberão jogos de fichas, contendo a primeira frase do texto. Por exemplo:  O PAULO PULA A JANELA. A interpretação do texto será orientada pelo professor, através de perguntas:
P.  Quem pula a janela?
R. O Paulo.
P.  O que o Paulo faz?
Q.   Pula a janela.
P. O que o Paulo pula?
R.  A janela.
    7º passo: Ilustração do cartaz.    A ilustração será realizada por todos os alunos da classe  e o cartaz deverá ficar exposto na sala, enquanto durar o trabalho com a unidade.
    8º passo: Entrega do texto mimeografado ao aluno, em letra de imprensa, sem ilustrações, para que haja:
  • leitura pelo aluno;
  • interpretação oral e/ou por meio de sinais;
  • interpretação escrita;
  • ilustração do texto pelo aluno.
    9º passo: Realização de exercícios gráficos para fixação das estruturas frasais e do vocabulário, como por exemplo:
  • ligar a letra de imprensa à letra cursiva;
  • desenhar as pessoas, os objetos, bem como as ações referentes às frases do texto;
  • ligar as palavras aos desenhos;
  • riscar a palavra que o professor falar;
  • ligar palavras iguais;
  • ligar fases aos desenhos;
  • ordenar palavras, formando frases.
    10º passo: Desenvolvimento de atividades de fixação e de compreensão:
  • cópia dirigida
  • ditado oral
  • auto-ditado (ver a figura e escrever o nome - ou frase correspondente)

    Todo material gráfico apresentado aos alunos deverá ser confeccionado em letra de imprensa.
    Professor: cuidado com o ditado!
    As trocas de letras na escrita de um lado surdo diferem daquelas apresentadas pelo aluno ouvinte, durante um ditado, por exemplo.
    O aluno ouvinte difere um /f/ de um /v/, por exemplo, exclusivamente através da informação auditiva que recebe: o /v/ é diferente do /f/ apenas sob o traço da sonoridade, ou seja, pela presença ou pela ausência de vibração das cordas vocais, uma vez que, sob o ponto de vista articulatório, ambos são idênticos.
    Como o aluno surdo não possui a informação da sonoridade - que é transmitida de forma exclusiva através de audição - ele realiza, na escrita, as trocas somente porque não consegue distingui-las na leitura orofacial. (Nesse caso a possível falha apresentada pelo aluno não é de ortografia, mas de leitura orofacial.)
    Como Trabalhar as Séries Silábicas
    Dentro dos textos deverão ser introduzidos vocábulos que propiciarão o conhecimento gradativo do aluno sobre as séries silábicas. Para o trabalho com essas séries silábicas, parte-se também de textos com começo, meio e fim, desenvolvendo um vocabulário específico com as sílabas a serem fixadas, seguindo novamente os passos já descritos para a exploração desses textos.
Esse trabalho de análise silábica inicia-se a partir do primeiro texto e segue paralelo à sua  exploração.
    . Seleção das Séries Silábicas
    A seleção das séries silábicas pode estar baseada na facilidade de aprendizado dos fonemas pelo surdo e nas dificuldades que este encontra-se sob o ponto de vista auditivo e visual, embora não seja necessária a emissão das palavras através da linguagem expressiva. No entanto, serão considerados pontos e modos de articulação, traço de sonoridade e nasalidade, não se colocando, portanto, numa seqüência próxima, sílabas que envolvam pares mínimos, homorgânicos, tais como: p/b - t/d - f/v - b/m, etc... Além disso, deve-se ter cuidado em não apresentar, de forma próxima, os grafemas que tenham a mesma forma e que só se diferenciam quanto à posição no espaço, tais como: p/b - b/d - p/q - q/g.

   . Método Analítico-Sintético
    Esse método caracteriza-se por explorar o todo significativo e as partes simultaneamente.
    Dentro desse método, o professor poderá partir:
a) da palavra, passando para a frase, formando um texto, retirando novamente a palavra para decompô-la em sílabas;
b) da frase, retirando a palavra para chegar à sílaba;
c) da estória, retirando a palavra-chave para depois destacar a sílaba.
. Desenvolvimento do Método Analítico-Sintético com Base Vivencial e Construtivista.    Esse método destina-se a:
- alunos que entram tardiamente na escola;
- crianças que apresentam um nível pobre de recepção e emissão, muitas vezes sem um trabalho anterior em treinamento auditivo;
- crianças que apresentam distúrbios perceptuais.
    As vantagens que esse método apresenta para esse tipo de aluno são:
- propicia à criança ser o sujeito de seu próprio conhecimento;
- facilita a aquisição de linguagem a criança que possuem um nível muito pobre nesta área e passam a se apoiar na pista gráfica, além da leitura orofacial e/ou da Língua Brasileira de Sinais;
- facilita a ampliação do léxico, bem como das estruturas da língua, à medida que o aluno reconhece palavras, destaca sílabas, forma novos vocábulos, novas frases, chegando a organizar uma estória com começo, meio e fim.
   .  Material    Para a aplicação do método analítico-sintético deve haver:
a) Textos com começo, meio e fim, visando a introdução das diversas famílias silábicas. Esses textos serão mais simples em termos de vocabulário e estruturas lingüísticas, no início da alfabetização, enriquecendo-se gradativamente;
b)  Exercícios de compreensão dos textos;
c)  Exercícios para fixação das séries silábicas.
    Observação: Todo material gráfico apresentado aos alunos, deverá ser confeccionado em letra de imprensa.   .  Como Explorar Cada Série Silábica
    Exemplo: série silábica: ma - mo - mu - me - mi.
    Palavra chave: macaco.
    Exploração da estória, através de dramatização ou passeios - (sugestão - visita ao jardim zoológico).
  • Apresentação do texto, na lousa, em letra de imprensa. Através de perguntas, o professor induzirá a classe a montar um texto.
  • Leitura oral e/ou sinalizada pelo professor.
  • Leitura oral e/ou sinalizada pelos alunos.
  • Apresentação do cartaz da palavra-chave que deverá ficar exposto na classe.
  • Destaque da palavra-chave, (que poderá ser um substantivo concreto ou um verbo dramatizável) no texto, pelo professor.
  • Destaque da palavra-chave, separação das sílabas a marcação do ritmo vocabular.
  • Formação, na lousa, de toda a série silábica.
  • Solicitação para que cada aluno circunde, no texto, um elemento da série silábica.
  • Solicitação aos alunos para que evoquem e emitam e/ou sinalizem palavras com a série silábica apresentada na lousa. Exploração do significado do vocabulário apresentado.
  • Leitura das palavras, visando a emissão oral correta dos fonemas.
  • Formação oral de frases com algumas das palavras apresentadas pelos alunos.
  • Entrega do texto mimeografado e em letra de imprensa aos alunos:
  • a)  leitura do texto; b)  destaque da palavra-chave; c)  destaque das sílabas, circulando-as; d)  ilustração do texto; e)  interpretação oral e/ou sinalizada;
  • Compreensão escrita do texto. Os exercícios deverão ser mais simples no início, graduando-se as dificuldades. Por exemplo:
  •  
    • completar frases;
    • ligar frases;
    • ordenar frases;
    • riscar o quadrado certo;
    • escrever sim ou não;
    • escrever certo ou errado;
  • Exercícios para fixação das sílabas:
  •  
    • circundar sílabas;
    • ligar palavras (letra de imprensa à cursiva);
    • escrever o nome correspondente a uma gravura ou desenho;
    • desenhar em correspondência às palavras apresentadas;
    • ligar o desenho ao nome;
    • separar sílabas;
    • formar palavras com as sílabas apresentadas;
    • completar palavras com as sílabas trabalhadas;
    • etc...
  • Utilização do ditado
    • ditado oralCuidado com o ditado!
    • auto-ditado.
  • Apresentação de textos suplementares sobre a mesma série silábica. Desenvolver os mesmos passos descritos para o texto de apresentação da série silábica.
 . Observações:

  • Antes que o professor inicie o trabalho com qualquer série silábica, deverá fazer o levantamento do vocabulário da realidade e do interesse dos alunos, elaborando os textos que deverão obedecer ao estágio lingüístico da classe.
  • A seleção das séries silábicas para o método analítico-sintético, obedece aos mesmos critérios já descritos na apresentação do método global.
   Séries Silábicas    Com base na fundamentação descrita no item 4.3.1.5, o professor poderá seguir a seqüência das séries silábicas, apresentadas a seguir:
  • pa, pe, pi, pu (pular)
  • ta, te, ti, to, tu
  • la, le, li, lo, lu (lavar)
  • sa, se, si, so, su (sapo)
  • va, ve, vi, vo, vu
  • ca, co, cu
  • ma, me, mi, mo, mu
  • fa, fe, fi, fo, fu
  • ba, be, bi, bo, bu
  • ga, go, gu
  • da, de, di,d o, du
  • cha, che, chi, cho, chu
  • na, ne, ni, no, nu
  • ra, re,ri, ro, ru (rato)
  • já, je, ji, jo, ju
  • as, se, si, so, su
  • xa, xe, xi, xo, xu
  • ra, re, ri, ro, ru (Vera)
  • ce, ci
  • lha, lhe, lhi, lho, lhu
  • ge, gi
  • sa,se, si, so, su (casa) som /z/
  • al, el, il, ol, ul
  • ça, ço, çu
  • pra, pre, pri, pro, pru
  • rra, rre, rri, rro, rru
  • ão
  • bra, bre, bri, bro, bru
  • cra, cre, cri, cro, cru
  • na, ne, ni, no, nu
  • ar, er, ir, or, ur
  • nha, nhe, nhi, nho, nhu
  • fra, fre, fri, fro, fru
  • tra, tre, tri, tro, tru
  • gue, gui
  • ssa, sse, ssi, sso, ssu
  • mp
  • mb
  • ã
  • que, qui
  • cla,cle,cli, clo,clu
  • za, ze, zi, zo, zu
  • gua, güe, güi, güo
  • qüe, qüi
  • gra, gre, gri, gro, gru
  • pla, ple, pli, plo, plu
  • fla, fle,fli, flo, flu
  • gla, gle, gli, glo, glu
  • az, ez, iz, oz, uz
  • dra, dre, dri, dro, dru
  • tla, tle, tli, tlo, tlu
  • vra, vre, vri, vro, vru
  • ha, he, hi, ho, hu
  • bla, ble, bli, blo, blu
  • sons do “x”. Exemplo: táxi
    • exercício
    • caixa
    • trouxe
    • explicar
    • etc...
    Obs.: A seqüência apresentada não é rígida. Cabe ao professor desenvolver a que julgar adequada às necessidades e potencialidades de seus educandos.

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