domingo, 18 de dezembro de 2011

CECÍLIA MEIRELES

COLAR DE CAROLINA (c/g)

COM SEU COLAR DE CORAL,
CAROLINA
CORRE POR ENTRE AS COLUNAS
DA COLINA.

O COLAR DE CAROLINA
COLORE O COLO DE CAL,
TORNA CORADA A MENINA.

E O SOL, VENDO AQUELA COR
DO COLAR DE CAROLINA,
PÕE COROAS DE CORAL

NAS COLUNAS DA COLINA.

CECÍLIA MEIRELES

A AVÓ DO MENINO (v)

A AVÓ
VIVE SÓ.
NA CASA DA AVÓ
O GALO LIRÓ
FAZ "COCOROCÓ!"
A AVÓ BATE PÃO-DE-LÓ
E ANDA UM VENTO-T-O-TÓ
NA CORTINA DE FILÓ.
A AVÓ
VIVE SÓ.
MAS SE O NETO MENINÓ
MAS SE O NETO RICARDÓ
MAS SE O NETO TRAVESSÓ
VAI À CASA DA AVÓ,
OS DOIS JOGAM DOMINÓ.

CECÍLIA MEIRELES

O ECO (c/g)

O MENINO PERGUNTA AO ECO
ONDE É QUE ELE SE ESCONDE.
MAS O ECO SÓ RESPONDE: ONDE? ONDE?

O MENINO TAMBÉM LHE PEDE:
ECO, VEM PASSEAR COMIGO!

MAS NÃO SABE SE O ECO É AMIGO
OU INIMIGO.
POIS SÓ LHE OUVE DIZER: MIGO!

CECÍLIA MEIRELES

O CAVALINHO BRANCO (m ant d p/b)
À TARDE, O CAVALINHO BRANCO
ESTÁ MUITO CANSADO:

MAS HÁ UM PEDACINHO DO CAMPO
ONDE É SEMPRE FERIADO.

O CAVALO SACODE A CRINA
LOURA E COMPRIDA

E NAS VERDES ERVAS ATIRA
SUA BRANCA VIDA.

SEU RELINCHO ESTREMECE AS RAÍZES
E ELE ENSINA AOS VENTOS

A ALEGRIA DE SENTIR LIVRES
SEUS MOVIMENTOS.

TRABALHOU TODO O DIA, TANTO!
DESDE A MADRUGADA!

DESCANSA ENTRE AS FLORES, CAVALINHO BRANCO,
DE CRINA DOURADA!

CECÍLIA MEIRELES

OU ISTO OU AQUILO (lh/ch/nh)

OU SE TEM CHUVA E NÃO SE TEM SOL
OU SE TEM SOL E NÃO SE TEM CHUVA!

OU SE CALÇA A LUVA E NÃO SE PÕE O ANEL,
OU SE PÕE O ANEL E NÃO SE CALÇA A LUVA!
QUEM SOBE NOS ARES NÃO FICA NO CHÃO,
QUEM FICA NO CHÃO NÃO SOBE NOS ARES.

É UMA GRANDE PENA QUE NÃO SE POSSA
ESTAR AO MESMO TEMPO NOS DOIS LUGARES!

OU GUARDO O DINHEIRO E NÃO COMPRO O DOCE,
OU COMPRO O DOCE E GASTO O DINHEIRO.

OU ISTO OU AQUILO: OU ISTO OU AQUILO...
E VIVO ESCOLHENDO O DIA INTEIRO!

NÃO SEI SE BRINCO, NÃO SEI SE ESTUDO,
SE SAIO CORRENDO OU FICO TRANQÜILO.
MAS NÃO CONSEGUI ENTENDER AINDA
QUAL É MELHOR: SE É ISTO OU AQUILO.

CECÍLIA MEIRELES
O MOSQUITO ESCREVE (r, s, n, pós sil)

O MOSQUITO PERNILONGO
TRANÇA AS PERNAS, FAZ UM M,
DEPOIS, TREME, TREME, TREME,
FAZ UM O BASTANTE OBLONGO,
FAZ UM S.

O MOSQUITO SOBE E DESCE.
COM ARTES QUE NINGUÉM VÊ,
FAZ UM Q,
FAZ UM U, E FAZ UM I.

ESTE MOSQUITO
ESQUISITO
CRUZA AS PATAS, FAZ UM T.
E AÍ,
SE ARREDONDA E FAZ OUTRO O,
MAIS BONITO.

OH!
JÁ NÃO É ANALFABETO,
ESSE INSETO,
POIS SABE ESCREVER SEU NOME.

MAS DEPOIS VAI PROCURAR
ALGUÉM QUE POSSA PICAR,
POIS ESCREVER CANSA,
NÃO É, CRIANÇA?

E ELE ESTÁ COM MUITA FOME.

CECÍLIA MEIRELES

TANTA TINTA (T/D)

AH! MENINA TONTA,
TODA SUJA DE TINTA
MAL O SOL DESPONTA!

(SENTOU-SE NA PONTE,
MUITO DESATENTA...
E AGORA SE ESPANTA:
QUEM É QUE A PONTE PINTA
COM TANTA TINTA?...)

A PONTE APONTA
E SE DESAPONTA.
A TONTINHA TENTA
LIMPAR A TINTA,
PONTO POR PONTO
E PINTA POR PINTA...

AH! A MENINA TONTA!
NÃO VIU A TINTA DA PONTE!

CECÍLIA MEIRELES
SONHOS DA MENINA (nh)

A FLOR COM QUE A MENINA SONHA
ESTÁ NO SONHO?
OU NA FRONHA?

SONHO
RISONHO:

O VENTO SOZINHO
NO SEU CARRINHO.

DE QUE TAMANHO
SERIA O REBANHO?

A VIZINHA
APANHA
A SOMBRINHA
DE TEIA DE ARANHA . . .

NA LUA HÁ UM NINHO
DE PASSARINHO.

A LUA COM QUE A MENINA SONHA
É O LINHO DO SONHO
OU A LUA DA FRONHA?

CECÍLA MEIRELES

RIO NA SOMBRA (m antes de p/b)

SOM
FRIO.

RIO
SOMBRIO.

O LONGO SOM
DO RIO
FRIO.

O FRIO
BOM
DO LONGO RIO.

TÃO LONGE,
TÃO BOM,
TÃO FRIO
O CLARO SOM
DO RIO
SOMBRIO!

CECÍLIA MEIRELES

O MENINO AZUL (RR, r fraco)

O MENINO QUER UM BURRINHO
PARA PASSEAR.
UM BURRINHO MANSO,
QUE NÃO CORRA NEM PULE,
MAS QUE SAIBA CONVERSAR.

O MENINO QUER UM BURRINHO
QUE SAIBA DIZER
O NOME DOS RIOS,
DAS MONTANHAS, DAS FLORES,
— DE TUDO O QUE APARECER.

O MENINO QUER UM BURRINHO
QUE SAIBA INVENTAR HISTÓRIAS BONITAS
COM PESSOAS E BICHOS
E COM BARQUINHOS NO MAR.

E OS DOIS SAIRÃO PELO MUNDO
QUE É COMO UM JARDIM
APENAS MAIS LARGO
E TALVEZ MAIS COMPRIDO
E QUE NÃO TENHA FIM.

(QUEM SOUBER DE UM BURRINHO DESSES,
PODE ESCREVER
PARA A RUAS DAS CASAS,
NÚMERO DAS PORTAS,
AO MENINO AZUL QUE NÃO SABE LER.)

CECÍLIA MEIRELES

A POMBINHA DA MATA (m antes de p/b)
TRÊS MENINOS NA MATA OUVIRAM
UMA POMBINHA GEMER.

"EU ACHO QUE ELA ESTÁ COM FOME",
DISSE O PRIMEIRO,
"E NÃO TEM NADA PARA COMER."

TRÊS MENINOS NA MATA OUVIRAM
UMA POMBINHA CARPIR.

"EU ACHO QUE ELA FICOU PRESA",
DISSE O SEGUNDO,
"E NÃO SABE COMO FUGIR."

TRÊS MENINOS NA MATA OUVIRAM
UMA POMBINHA GEMER.

"EU ACHO QUE ELA ESTÁ COM SAUDADE",
DISSE O TERCEIRO,
"E COM CERTEZA VAI MORRER."

CECÍLIA MEIRELES
PASSARINHO NO SAPÉ (p/b)

P TEM PAPO
O P TEM PÉ.
É O P QUE PIA?
(PIU!)

QUEM É?
O P NÃO PIA:
O P NÃO É.
O P SÓ TEM PAPO
E PÉ.

SERÁ O SAPO?
O SAPO NÃO É.

(PIU!)

É O PASSARINHO
QUE FEZ SEU NINHO
NO SAPÉ.

PIO COM PAPO.
PIO COM PÉ.
PIU-PIU-PIU:
PASSARINHO.

PASSARINHO
NO SAPÉ.

CECÍLIA MEIRELES

BOLHAS (lh/nh)

OLHA A BOLHA D'ÁGUA
NO GALHO!
OLHA O ORVALHO!

OLHA A BOLHA DE VINHO
NA ROLHA!
OLHA A BOLHA!

OLHA A BOLHA NA MÃO
QUE TRABALHA!

OLHA A BOLHA DE SABÃO
NA PONTA DA PALHA:
BRILHA, ESPELHA
E SE ESPALHA.
OLHA A BOLHA!

OLHA A BOLHA
QUE MOLHA
A MÃO DO MENINO:
A BOLHA DA CHUVA DA CALHA!

CECÍLIA MEIRELES
AS MENINAS (r fraco)

ARABELA
ABRIA A JANELA.

CAROLINA
ERGUIA A CORTINA.

E MARIA
OLHAVA E SORRIA:
"BOM DIA!"

ARABELA
FOI SEMPRE A MAIS BELA.

CAROLINA,
A MAIS SÁBIA MENINA.

E MARIA
APENAS SORRIA:
"BOM DIA!"

PENSAREMOS EM CADA MENINA
QUE VIVIA NAQUELA JANELA;

UMA QUE SE CHAMAVA ARABELA,
UMA QUE SE CHAMOU CAROLINA.

MAS A PROFUNDA SAUDADE
É MARIA, MARIA, MARIA,

QUE DIZIA COM VOZ DE AMIZADE:
"BOM DIA!"

CECÍLIA MEIRELES

PARA IR À LUA (an, em)

ENQUANTO NÃO TEM FOGUETES
PARA IR À LUA,
OS MENINOS DESLIZAM DE PATINETE
PELAS CALÇADAS DA RUA.

VÃO CEGOS DE VELOCIDADE:
MESMO QUE QUEBREM O NARIZ,
QUE GRANDE FELICIDADE!
SER VELOZ É SER FELIZ.

AH! SE PUDESSEM SER ANJOS
DE LONGAS ASAS!
MAS SÃO APENAS MARMANJOS.

CECÍLIA MEIRELES


ENCHENTE (ch)
CHAMA O ALEXANDRE!
CHAMA!
OLHA A CHUVA QUE CHEGA!
É A ENCHENTE.
OLHA O CHÃO QUE FOGE COM A CHUVA...
OLHA A CHUVA QUE ENCHARCA A GENTE.
PÕE A CHAVE NA FECHADURA.
FECHA A PORTA POR CAUSA DA CHUVA,
OLHA A RUA COMO SE ENCHE!
ENQUANTO CHOVE, BOTA A CHALEIRA
NO FOGO: OLHA A CHAMA! OLHA A CHISPA!
OLHA A CHUVA NOS FEIXES DE LENHA!
VAMOS TOMAR CHÁ, POIS A CHUVA
É TANTA QUE NEM DE GALOCHA
SE PODE ANDAR NA RUA CHEIA!
CHAMA O ALEXANDRE!
CHAMA!

CECÍLIA MEIRELES

A BAILARINA (b)

ESTA MENINA
TÃO PEQUENINA
QUER SER BAILARINA

NÃO CONHECE NEM DÓ NEM RÉ,
MAS SABE FICAR NA PONTA DO PÉ.

NÃO CONHECE NEM MI NEM FÁ,
MAS INCLINA O CORPA PARA LÁ E PARA CÁ.
NÃO CONHECE NEM LÁ NEM SI,
MAS FECHA OS OLHOS E SORRI.

RODA, RODA, RODA COM OS BRACINHOS NO AR
E NÃO FICA TONTA NEM SAI DO LUGAR.

PÕE NO CABELO UMA ESTRELA E UM VÉU
E DIZ QUE CAIU DO CÉU.

ESTA MENINA
TÃO PEQUENINA
QUER SER BAILARINA

MAS DEPOIS ESQUECE TODAS AS DANÇAS,
E TAMBÉM QUER DORMIR COMO AS OUTRAS CRIANÇAS.

CECÍLIA MEIRELES
JOGO DE BOLA (r fraco)
A BELA BOLA
ROLA:
A BELA BOLA DO RAUL.

BOLA AMARELA,
A DA ARABELA.

A DO RAUL,
AZUL.

ROLA A AMARELA
E PULA A AZUL.

A BOLA É MOLE,
É MOLE E ROLA.

A BOLA É BELA,
É BELA E PULA.

É BELA, ROLA E PULA,
É MOLE, AMARELA E AZUL.

A DE RAUL É DE ARABELA,
E A DE ARARABELA É DE RAUL

CECÍLIA MEIRELES

O ÚLTIMO ANDAR (l pós silaba)
NO ÚLTIMO ANDAR É MAIS BONITO:
DO ÚLTIMO ANDAR SE VÊ O MAR.
É LÁ QUE EU QUERO MORAR.

O ÚLTIMO ANDAR É MUITO LONGE:
CUSTA-SE MUITO A CHEGAR.
MAS É LÁ QUE EU QUERO MORAR.

TODO O CÉU FICA A NOITE INTEIRA
SOBRE O ÚLTIMO ANDAR
É LÁ QUE EU QUERO MORAR.

QUANDO FAZ LUA NO TERRAÇO
FICA TODO O LUAR.
É LÁ QUE EU QUERO MORAR.

OS PASSARINHOS LÁ SE ESCONDEM
PARA NINGUÉM OS MALTRATAR:
NO ÚLTIMO ANDAR.

DE LÁ SE AVISTA O MUNDO INTEIRO:
TUDO PARECE PERTO, NO AR.
É LÁ QUE EU QUERO MORAR:
NO ÚLTIMO ANDAR.

CECÍLIA MEIRELES
RODA NA RUA (r forte inicial, rr)

RODA NA RUA
A VIDA DO CARRO.
RODA NA RUA A RODA DAS DANÇAS.
A RODA NA RUA
RODAVA NO BARRO.
NA RODA DA RUA
RODAVAM CRIANÇAS.
O CARRO, NA RUA.

O LAGARTO MEDROSO (diversas)

O LAGARTO PARECE UMA FOLHA
VERDE E AMARELA.
E RESIDE ENTRE AS FOLHAS, O TANQUE
E A ESCADA DE PEDRA.
DE REPENTE SAI DA FOLHAGEM,
DEPRESSA, DEPRESSA,
OLHA O SOL, MIRA AS NUVENS E CORRE
POR CIMA DA PEDRA.
BEBE O SOL, BEBE O DIA PARADO,
SUA FORMA TÃO QUIETA,
NÃO SE SABE SE É BICHO, SE É FOLHA
CAÍDA NA PEDRA.
QUANDO ALGUÉM SE APROXIMA,

— OH! QUE SOMBRA É AQUELA? —
O LAGARTO LOGO SE ESCONDE
ENTRE AS FOLHAS E A PEDRA.

MAS NO ABRIGO, LEVANTA A CABEÇA
ASSUSTADA E ESPERTA:
QUE GIGANTES SÃO ESSES QUE PASSAM
PELA ESCADA DE PEDRA?
ASSIM VIVE, CHEIO DE MEDO,
INTIMIDADO E ALERTA,
O LAGARTO (DE QUE TODOS GOSTAM)
ENTRE AS FOLHAS, O TANQUE E A PEDRA.

CUIDADOSO E CURIOSO,
O LAGARTO OBSERVA.
E NÃO VÊ QUE OS GIGANTES SORRIEM
PARA ELE, DA PEDRA.
ASSIM VIVE, CHEIO DE MEDO,
INIMIDADO E ALERTA,
O LAGARTO (DE QUE TODOS GOSTAM)
ENTRE AS FOLHAS, O TANQUE E A PEDRA.

CECÍLIA MEIRELES
.




O VESTIDO DE LAURA (t/d)

O VESTIDO DE LAURA
É DE TRÊS BABADOS,
TODOS BORDADOS.
O PRIMEIRO, TODINHO,
TODINHO DE FLORES
DE MUITAS CORES.

NO SEGUNDO, APENAS
BORBOLETAS VOANDO,
NUM FINO BANDO.

O TERCEIRO, ESTRELAS,
ESTRELAS DE RENDA
- TALVEZ DE LENDA...
O VESTIDO DE LAURA
VAMOS VER AGORA,
SEM MAIS DEMORA!

QUE AS ESTRELAS PASSAM,
BORBALETAS, FLORES
PERDEM SUAS CORES.

SE NÃO FORMOS DEPRESSA,
ACABOU-SE O VESTIDO
TODO BORDADO E FLORIDO!

CECÍLIA MEIRELES

ROLA A CHUVA (r forte, rr)
O FRIO ARREPIA
A MOÇA ARREDIA.

ARRE
QUE ARRELIA!
NA RUA ROLA A RODA...
ARREDA!
A ROLA ARRULHA NA TORRE.

A CHUVA SUSSURRA.

ROLA A CHUVA
REGA A TERRA
REGA O RIO
REGA A RUA.

E NA RUA RODA ROLA.

CECÍLIA MEIRELES



CANÇÃO (r pós silaba)
DE BORCO
NO BARCO.
(DE BRUÇOS
NO BERÇO...)

O BRAÇO É O BARCO.
O BARCO É O BERÇO.

ABARCO E ABRAÇO
O BERÇO
E O BARCO.
COM DESEMBARAÇO
EMBARCO
E DESEMBARCO.

DE BORCO
NO BERÇO...
(DE BRUÇOS
NO BARCO...)

CECÍLIA MEIRELES

O SANTO NO MONTE (an, en..)

NO MONTE,
O SANTO
EM SEU MANTO,
SORRIA TANTO!

SORRIA PARA UMA FONTE
QUE HAVIA NO ALTO DO MONTE
E TAMBÉM PORQUE DEFRONTE
SE VIA O SOL NO HORIZONTE.

NO MONTE
O SANTO
EM SEU MANTO
CHORA TANTO!

CHORA - POIS NÃO HÁ MAIS FONTE,
E AGORA HÁ UM MURO DEFRONTE
QUE JÁ NÃO DEIXA DO MONTE
VER O SOL NEM O HORIZONTE.

NO MONTE
O SANTO
EM SEU MANTO
CHORA TANTO!

(DURO
MURO
ESCURO!)

CECÍLIA MEIRELES

NA CHÁCARA DO CHICO BOLACHA
NA CHÁCARA DO CHICO BOLACHA
O QUE SE PROCURA
NUN SE ACHA!

QUANDO CHOVE MUITO,
O CHICO BRINCA DE BARCO,
PORQUE A CHÁCRA VIRA CHARCO.

QUANDO NÃO CHOVE NADA,
CHICO TRABALHA COM A ENXADA
E LOGO SE MACHUCA
E FICA DE MÃO INCHADA.

POR ISSO, COM O CHICO BOLACHA,
O QUE SE PROCURA
NUNCA SE ACHA.

DIZEM QUE A CHÁCARA DO CHICO
SÓ TEM MESMO CHUCHU
E UM CACHORRINHO COXO
QUE SE CHAMA CAXAMBU.

OUTRAS COISAS, NINGUÉM PROCURA,
PORQUE NÃO ACHA.
COITADO DO CHICO BOLACHA!

CECÍLIA MEIRELES
.
FIGURINHAS I (ch, nh)
NO CLARO JARDIM
A MENINA CHORA
PELA BORBOLETA
QUE SE FOI EMBORA.

ORA, ORA, ORA,
NÃO CHORE TANTO!
NOSSA SENHORA!

A MENINA CHORA
NO CLARO JARDIM
UM CHORO SEM FIM.

NEM O CÉU AZUL
É BONITO, AGORA,
POIS A BORBOLETA
JÁ SE FOI EMBORA.

NÃO CHORE TANTO!
NOSSA SENHORA!

QUE CHORO SEM FIM
A MENINA CHORA
NO CLARO JARDIM.

ORA, ORA, ORA!
CECÍLIA MEIRELES
FIGURINHAS II (várias)

ONDE ESTÁ MEU QUINTAL
AMARELO E ENCARNADO,
COM MENINOS BRINCANDO
DE CHICOTE-QUEIMADO,
COM CIGARRAS NOS TRONCOS
E FORMIGAS NO CHÃO,
E MUITAS CONCHAS BRANCAS
DENTRO DA MINHA MÃO?

E JÚLIA E MARIA
E AMÉLIA ONDE ESTÃO?

ONDE ESTÁ MEU ANEL
E O BANQUINHO QUADRADO
E O SABIÁ NA MANGUEIRA
E O GATO NO TELHADO?

— A MORINGA DE BARRO,
E O CHEIRO DO ALVO PÃO?
E A TUA VOZ, PEDRINA,
SOBRE MEU CORAÇÃO?
EM QUE ALTOS BALANÇOS
SE BALANÇARÃO?...

CECÍLIA MEIRELES

O SONHO E A FRONHA (NH)
SONHO RISONHO
NA FRONHA DE LINHO.
NA FRONHA DE LINHO,
A FLOR SEM ESPINHO.

APANHO A LENHA
PARA O VIZINHO.

E ENCONTRO O NINHO
DE PASSARINHO.

DE QUE TAMANHO
SERIA O REBANHO?

NÃO HÁ QUEM VENHA
PELA MONTANHA
COM A MINHA SOMBRINHA
DE TEIA DE ARANHA?

SONHO O MEU SONHO.
A FLOR SEM ESPINHO
TAMBÉM SONHA
NA FRONHA.

NA FRONHA DE LINHO.

CECÍLIA MEIRELES
.
A FLOR AMARELA (lh)

OLHA
A JANELA
DA BELA
ARABELA.

QUE FLOR
É AQUELA
QUE ARABELA
MOLHA?

É UMA FLOR AMARELA.

CECÍLIA MEIRELES

O CHÃO E O PÃO (ão)

O CHÃO.
O GRÃO.
O GRÃO NO CHÃO.

O PÃO.
O PÃO E A MÃO.
A MÃO NO PÃO.

O PÃO NA MÃO.
O PÃO NO CHÃO?
NÃO.

CECÍLIA MEIRELES
.
A FOLHA NA FESTA (l entre silabas)
ESTA FLOR
NÃO É DA FLORESTA.

ESTA FLOR É DA FESTA,
ESTA É A FLOR DA GIESTA.

É A FESTA DA FLOR
E A FLOR ESTÁ NA FESTA.

(E ESTA FOLHA?
QUE FOLHA É ESTA?)

ESTA FOLHA NÃO É DA FLORESTA.

ESTA FOLHA NÃO É DA GIESTA.

NÃO É FOLHA DE FLOR.
MAS ESTÁ NA FESTA.

NA FESTA DA FLOR
NA FLOR DA GIESTA.

CECÍLIA MEIRELES
.
NA SACADA DA CASA (c/g; s/ç)

NA
SACADA
A SACA
DA CAÇADA.
NA SACADA DA CASA.
E A SACADA
NA CALÇADA.

QUEM SE CASA
DE CASACA?

NA SACADA DA CASA
A SACA.
NA SACA, A ASA.
ASA E ALÇA.
A SACA DA CAÇA.

QUEM SE ALÇA
DA SACADA
PARA A CALÇADA?
A MENINA DESCALÇA.
A MENINA CALADA.

E NA CALÇADA DA CASA,
A CASADA.

CECÍLIA MEIRELES
.
A ÉGUA E A ÁGUA (gua, gue)

A ÉGUA OLHAVA A LAGOA
COM VONTADE DE BEBER A ÁGUA.

A LAGOA ERA TÃO LARGA
QUE A ÉGUA OLHAVA E PASSAVA.

BASTAVA-LHE UMA POÇA D'ÁGUA,
AH! MAS SÓ DAQUI A ALGUMAS LÉGUAS.

E A ÉGUA A SEDE AGÜENTAVA.

A ÉGUA ANDAVA AGORA ÀS CEGAS
DE OLHOS VAGOS NAS TERRAS VAGAS,
BUSCANDO ÁGUA.

GRANDE MÁGOA!

POIS O ORVALHO É UMA GOTA EXÍGUA
E AS LAGOAS SÃO MUITO LARGAS.

CECÍLIA MEIRELES




O VIOLÃO E O VILÃO (ão, v/f)

HAVIA A VIOLA DA VILA.
A VIOLA E O VIOLÃO.

DO VILÃO ERA A VIOLA.
E DA OLÍVIA O VIOLÃO.

O VIOLÃO DA OLÍVIA DAVA
VIDA À VILA, À VILA DELA.

O VIOLÃO DUVIDAVA
DA VIDA, DA VIOLA E DELA.

NÃO VIVE OLÍVIA NA VILA.
NA VILA NEM NA VIOLA.
O VILÃO LEVOU-LHE A VIDA,
LEVANDO O VIOLÃO DELA.

NO VALE, A VILA DE OLÍVIA
VELA A VIDA
NO SEU VIOLÃO VIVIDA
E POR UM VILÃO LEVADA.

VIDA DE OLÍVIA - LEVADA
POR UM VILÃO VIOLENTO.
VIOLETA VIOLADA
PELA VIOLA DO VENTO.


CECÍLIA MEIRELES

JARDIM DA IGREJA (l)

DALILA E LÉLIA,
E JÚLIA E EULÁLIA
CORTAVAM DÁLIAS.

DALILA E LÉLIA,
EULÁLIA E JÚLIA
CANTAVAM DÚLIAS.

DÁLIAS E DÚLIAS
E HARPAS EÓLIAS...

E A ALADA LUA
— ALTA CAMÉLIA?
— CÉLIA MAGNÓLIA?

CECÍLIA MEIRELES






A LÍNGUA DO NHEM (nh, lh)

HAVIA UMA VELHINHA
QUE ANDAVA ABORRECIDA
POIS DAVA A SUA VIDA
PARA FALAR COM ALGUÉM.

E ESTAVA SEMPRE EM CASA
A BOA DA VELHINHA,
RESMUNGANDO SOZINHA:

NHEM-NHEM-NHEM-NHEM- NHEM- NHEM...

O GATO QUE DORMIA
NO CANTO DA COZINHA
ESCUTANDO A VELHINHA,
PRINCIPIOU TAMBÉM

A MIAR NESSA LÍNGUA
E SE ELA RESMUNGAVA,
O GATINHO A ACOMPANHA:

NHEM-NHEM-NHEM-NHEM- NHEM- NHEM...

DEPOIS VEIO O CACHORRO
DA CASA DA VIZINHA,
PATO, CABRA E GALINHA,
DE CÁ, DE LÁ, DE ALÉM,

E TODOS APRENDERAM
A FALAR NOITE E DIA
NAQUELA MELODIA

NHEM-NHEM-NHEM-NHEM- NHEM- NHEM...

DE MODO QUE A VELHINHA
QUE MUITO PADECIA
POR NÃO TER COMPANHIA
NEM FALAR COM NINGUÉM,

FICOU TODA CONTENTE,
POIS MAL A BOCA ABRIA
TUDO LHE RESPONDIA:

NHEM-NHEM-NHEM-NHEM- NHEM- NHEM...

CECÍLIA MEIRELES
.








CANÇÃO DA FLOR DA PIMENTA (r,s pós silaba)

A FLOR DA PIMENTA É UMA PEQUENA ESTRELA,
FINA E BRANCA,
A FLOR DA PIMENTA.
FRUTINHAS DE FOGO VÊM DEPOIS DA FESTA
DAS ESTRELAS.
FRUTINHAS DE FOGO.

UNS CORAÇÕEZINHOS ROXOS, ÁUREOS, RUBROS,
MUITO ARDENTES.
UNS CORAÇÕEZINHOS.

E AS PEQUENAS FLORES TÃO SEM FIRMAMENTO
JAZEM LONGE.
AS PEQUENAS FLORES...

MUDARAM-SE EM FARPAS, SEMENTES DE FOGO
TÃO PUNGENTES!
MUDARAM-SE EM FARPAS.

NOVAS SE ABRIRÃO,
LEVES,
BRANCAS,
PURAS,
DESTE FOGO
MUITAS ESTRELINHAS...

CECÍLIA MEIRELES
.
MODA DA MENINA TROMBUDA (m/n)
'
É A MODA
DA MENINA MUDA
DA MENINA TROMBUDA
QUE MUDA DE MODOS
E DÁ MEDO.

( A MENINA MIMADA!)

É A MODA
DA MENINA MUDA
QUE MUDA
DE MODOS
E JÁ NÃO É TROMBUDA.

( A MENINA AMADA!)

CECÍLIA MEIRELES


A LUA É DO RAUL (l final)

RAIO DE LUA.
LUAR.
LUAR DO AR
AZUL.

RODA DA LUA.
ARO DA RODA
NA TUA
RUA,
RAUL!

RODA O LUAR
NA RUA
TODA
AZUL.

RODA O ARO DA LUA.

RAUL.
A LUA É TUA,
A LUA DE TUA RUA!

A LUA DO ARO AZUL!

CECÍLIA MEIRELES

LUA DEPOIS DA CHUVA (lh/ch)

OLHA A CHUVA:
MOLHA A LUVA.

CADA GOTA DE ÁGUA
COMO UM BAGO DE UVA.

A CHUVA LAVA A RUA.
A VIÚVA LEVA
O GUARDA-CHUVA
E A LUVA.

OLHA A CHUVA:
MOLHA A LUVA
E O GUARDA-CHUVA
DA VIÚVA.

VAI A CHUVA
E CHEGA A LUA:
LUA DE CHUVA.

CECÍLIA MEIRELES





UMA PALMADA BEM DADA (diversas)

É A MENINA MANHOSA
QUE NÃO GOSTA DA ROSA,

QUE NÃO QUER A BORBOLETA
PORQUE É AMARELA E PRETA,

QUE NÃO QUER MAÇÃ NEM PÊRA
PORQUE TEM GOSTO DE CERA,

QUE NÃO TOMA LEITE
PORQUE LHE PARECE AZEITE,

QUE MINGAU NÃO TOMA
PORQUE É MESMO GOMA,

QUE NÃO ALMOÇA NEM JANTA
PORQUE CANSA A GARGANTA,

QUE TEM MEDO DE GATO
E TAMBÉM DE RATO,

E TAMBÉM DO CÃO
E TAMBÉM DO LADRÃO,

QUE NÃO CALÇA MEIA
PORQUE DENTRO TEM AREIA,
QUE NÃO TOMA BANHO FRIO
PORQUE SENTE ARREPIO

QUE NÃO QUER BANHO QUENTE
PORQUE CALOR SENTE,

QUE A UNHA NÃO CORTA
PORQUE SEMPRE FICA TORTA,

QUE NÃO ESCOVA OS DENTES
PORQUE FICAM DORMENTES,

QUE NÃO QUER DORMIR CEDO
PORQUE SENTE IMENSO MEDO;

QUE TAMBÉM TARDE NÃO DORME
PORQUE SENTE UM MEDO ENORME,

QUE NÃO QUER FESTA NEM BEIJO,
NEM DOCE NEM QUEIJO...

Ó MENINA LEVADA,
QUER UMA PALMADA?

UMA PALMADA BEM DADA
PARA QUEM NÃO QUER NADA!

CECÍLIA MEIRELES

AS DUAS VELHINHAS (lh, m)

DUAS VELHINHAS MUITO BONITAS,
MARIANA E MARINA,
ESTÃO SENTADAS NA VARANDA:
MARINA E MARIANA.

ELAS USAM BATAS DE FITAS,
MARIANA E MARINA,
E PENTEADOS DE TRANÇAS:
MARINA E MARIANA.

TOMAM CHOCOLATE AS VELHINHAS
MARIANA E MARINA,
EM XÍCARAS DE PORCELANA:
MARINA E MARIANA.

UMA DIZ: “ COMO A TARDE É LINDA,
NÃO É, MARINA?”

A OUTRA DIZ: “COMO AS ONDAS DANÇAM,
NÃO É MARIANA?”

“ONTEM EU ERA PEQUENINA”,
DIZ MARINA.
“ONTEM, NÓS ÉRAMOS CRIANÇAS”,
DIZ MARIANA.

E LEVAM Á BOCA AS XICRINHAS
MARIANA E MARINA,
AS XICRINHAS DE PORCELANA:
MARINA E MARIANA.

TOMAM CHOCOLATE AS VELHINHAS,
MARIANA E MARINA.
E FALAM DE SUAS LEMBRANÇAS,
MARIANA E MARIANA.

CECÍLIA MEIRELES
















OS PESCADORES E SUAS FILHAS
(an, am)

OS PESCADORES DORMIAM
CANSADOS, AO SOL, NOS BARCOS.

AS FILHINHAS DOS PESCADORES
BRINCAVAM NA PRAÇA, DE MÃOS DADAS.

AS FILHINHAS DOS PESCADORES
CANTAVAM CANTIGAS DE SOL E DE ÁGUA.

OS PESCADORES SONHAVAM
COM SEUS BARCOS CARREGADOS.

OS PESCADORES DORMIAM
CANSADOS DE SEU TRABALHO.

AS FILHINHAS DOS PESCADORES
FALAVAM DE BEIJOS E ABRAÇOS.

EM SONHO, OS PESCADORES SORRIAM.
AS MENINAS CANTAVAL TÃO ALTO,

QUE ATÉ NO SONHO DOS PESCADORES
BOIAVAM AS SUAS PALAVRAS.

CECÍLIA MEIRELES

LEILÃO DE JARDIM (pr/gr)

QUEM ME COMPRA UM JARDIM COM FLORES?
BORBOLETAS DE MUITAS CORES,
LAVADEIRAS E PASSARINHOS,
OVOS VERDES E AZUIS NOS NINHOS?

QUEM ME COMPRA ESTE CARACOL?
QUEM ME COMPRA UM RAIO DE SOL?
UM LAGARTO ENTRE O MURO E A HERA,
UMA ESTÁTUA DA PRIMAVERA?

QUEM ME COMPRA ESTE FORMIGUEIRO?
E ESTE SAPO, QUE É JARDINEIRO?
E A CIGARRA E A SUA CANÇÃO?
E O GRILINHO DENTRO DO CHÃO?
(ESTE É MEU LEILÃO!)

CECÍLIA MEIRELES








CANÇÃO DA INDIAZINHA (m/n)
.
NA, NA,
MAS PORQUE CHORA ESSA MENINA?
PELA FLOR DO MARACUJÁ.

MAS, SE EU LHE DER UMA CONCHINHA,
A MENINA SE CALARÁ?
AÁNA, AÁNI NA NA.

NA, NA,
SE EU LHE DER A ASA DA ANDORINHA,
A CANTIGA DO SABIÁ?
AÁNI, AÁNI, NA NA

NA, NA,
NADA DISSE: QUE ESTA MENINA
QUER A FLOR DO MARACUJÁ.

NA, NA.
E ELA A QUER APANHAR SOZINHA !
E CHORA QUE CHORA A MENINA

PELA FLOR DO MARACUJÁ.
NA NA.

CECÍLIA MEIRELES


RÔMULO REMA (r forte e RR)

RÔMULO REMA NO RIO.

A ROMÃ DORME NO RAMO,
A ROMÃ RUBRA. (E O CÉU.)

O REMO ABRE O RIO.
O RIO MURMURA.

A ROMÂ RUBRA DORME
CHEIA DE RUBIS. ( E O CÉU.)

RÔMULO REMA NO RIO.

ABRE-SE A ROMÃ.
ABRE-SE A MANHÃ.

ROLAM RUBIS RUBROS DO CÉU.

NO RIO.
RÔMULO REMA

CECÍLIA MEIRELES

Nenhum comentário:

Postar um comentário